Irina, sentada na beira do celeiro, balançava as pernas preguiçosamente e bebia limonada direto da garrafa.
- Pensar.
"Em que você está pensando de repente? Pensar não faz bem para nós na nossa aldeia; só causa problemas desnecessários." Pasha encostou-se na parede do celeiro e acendeu um cigarro.
"Exatamente. Estou pensando em como sair daqui." Irina olhou para ele, protegendo os olhos do sol.
"Bem, é fácil derrubá-los do telhado. Mas você não vai conseguir recolher os ossos." Pasha riu.
Irina fez uma careta.
"Não do telhado, mas da aldeia. Estou cansado daqui. Todos os dias são iguais: mamãe e papai brigam por causa de batatas, o clube ainda está jogando contra Santa Bárbara, e você — o melhor intelectual da região — fica aí parado sem fazer nada."
"Ei! Aliás, estou planejando minha carreira!" Pasha ergueu as sobrancelhas.
/* */— O quê? Você nem terminou a escola direito.
— Vou ser um artista de espetáculos, como o Urgant. Ou um motorista de táxi. Tenho um horário flexível por enquanto.
Irina revirou os olhos.
"Então, para onde você vai, espertinho? A cidade mais próxima fica a 200 quilômetros daqui, atravessando a floresta e passando por algumas pontes quebradas."
“Mas nós temos uma bicicleta, um mapa antigo e uma ideia brilhante”, disse Pasha em tom conspiratório.
- E em que consiste?
"É uma lógica simples, senhora. Pegamos a scooter do seu pai, enchemos o tanque até a boca, seguimos o mapa até a gasolina acabar e então começamos uma nova vida."
Irina pensou por um instante. A ideia parecia estúpida, mas tinha um certo charme ousado.
— Ok, vamos lá. Mas se eu acabar nas notícias, será na seção de "curiosidades", não na de "tragédias".
Pasha sorriu triunfantemente.
Naquela mesma noite, começou a Operação Grande Fuga. Enquanto Pasha carregava furtivamente um galão de gasolina para fora do galpão, Irina tirou um mapa antigo do sótão, que mais parecia uma coleção de recortes do que um guia turístico.
"Olha", ela apontou para o mapa. "Tem uma floresta desenhada aqui, e deveria haver uma estrada que a atravessasse. Bem, pelo menos havia uma quando meus pais ainda estavam se apaixonando."
"O importante é que os ursos não nos comam, e nós daremos um jeito na estrada", disse Pasha, otimista, enquanto fechava a tampa do tanque de gasolina da scooter.
Eles levaram a scooter para o quintal. A scooter, orgulhosamente chamada de "Vento da Liberdade", era velha, estava descascando e parecia mais uma peça de museu do que um meio de transporte.
"Ele vai mesmo?", perguntou Irina, em tom de dúvida.
"Você está brincando? É uma lenda local!" Pasha deu um tapinha carinhoso no volante. "Entre, você será meu navegador."
A scooter pegou na terceira tentativa, ensurdecendo metade da aldeia com o rugido do motor, e eles partiram.
Uma viagem de uma hora
"Diga-me honestamente, você sequer sabe para onde estamos indo?" perguntou Irina, agarrando-se a Pasha enquanto o Vento da Liberdade sacudia a cada solavanco.
— Bem, mais ou menos. Há algumas luzes ali à esquerda; pode ser uma vila. Ou apenas os faróis de algum carro.
— Sabe, Pash, olhando para você, me parece que você não vai se tornar Urgant tão cedo.
"Estou dizendo isso só para causar impacto, mas no fundo sou um estrategista!" Pasha virou à direita rapidamente, e a scooter deu um rugido abafado antes de parar.
"O que aconteceu?" Irina desceu, olhando em volta com desconfiança.
“Parece que ficamos sem gasolina”, admitiu Pasha, com um tom de culpa.
"Você é um gênio!" Irina ergueu as mãos. "Ainda nem chegamos à rodovia!"
Eles permaneceram parados na estrada, cercados pela floresta, onde estava escuro e suspeitosamente silencioso.
"Bem, não é tão ruim assim", disse Pasha, ouvindo. "Você ouve isso? Aquele rio está por perto. Deve haver gente lá."
"Ou ursos", murmurou Irina, mas o seguiu.
Mais tarde
Eles chegaram ao rio, onde de repente descobriram algo estranho. Uma jangada, com uma lanterna acesa, estava na margem, dentro da água. Uma mochila estava perto, revelando pedaços de pão fresco e uma lata de leite condensado.
"Tem alguém aqui", sussurrou Irina.
“Ou era”, esclareceu Pasha, olhando em volta com cautela.
De repente, um forte farfalhar veio das árvores, e um homem saltou para a margem. Ele vestia uma capa enorme, visivelmente mal ajustada, e segurava uma velha rede de pesca. Ao ver os meninos, ele congelou.
"Quem é você?", perguntou ele, semicerrando os olhos.
“Nós somos… hum… turistas”, disse Pasha. “E você?”
"Estou aqui... pescando", murmurou o homem, apertando a rede contra si.
Irina percebeu rapidamente que algo estava errado. Pasha pareceu perceber também.
"Sim, peixe", ela respondeu arrastando as palavras. "Às duas da manhã, com uma lanterna e uma jangada improvisada. Por acaso não foi você quem desenterrou a nossa estrada?"
O homem ficou tenso e, de repente, virou-se bruscamente, lançando a rede.
"Peguem ele!" gritou Irina.
Pasha correu atrás do sujeito suspeito. O que ele estava escondendo? O que havia em sua mochila?
Pasha, segurando o homem pela manga com destreza, recuperou o fôlego. Irina, entretanto, aproximou-se, ainda observando o fugitivo com desconfiança.
"Está bem, fale normalmente", disse ela. "Se você nos achar idiotas, isso não vai durar muito."
O homem, percebendo que não tinha como escapar, suspirou e assentiu com a cabeça.
— Certo. Meu nome é Grigory. Eu... bem, digamos que trabalho meio período.
"O que você faz nas horas vagas?", perguntou Irina, cruzando os braços.
"Ah, que se dane, eu admito. Sou da cidade, vim para cá para... me virar. Estou com problemas no trabalho, alguém está me procurando, e aqui, no silêncio, é mais fácil me esconder."
"E a mochila?" Pasha acenou com a cabeça na direção dos objetos deixados perto da jangada.
Gregory ficou um pouco constrangido.
"Só comida. E um pouco de dinheiro. Deixei as latas para levar ao centro de reciclagem mais próximo. Não é minha rede, encontrei aqui."
Irina e Pasha trocaram olhares. A história parecia plausível, mas os detalhes eram escassos.
"Então por que você fugiu?", perguntou Irina.
"Afinal, quem são vocês? Pensei que fossem os caçadores de 'moradores da cidade' daqui. Vocês sabem como tratam os forasteiros por aqui."
“É verdade”, Irina concordou com a cabeça, lembrando-se de como da última vez toda a aldeia se voltou contra o vendedor de aspiradores de pó que falava alto demais sobre os descontos.
Gregory ainda parecia cauteloso.
"Escuta, eu não sou ladrão. Só um cara que precisa de um tempo para pensar nas coisas. Se você não acredita em mim, pode revistar minha mochila."
Irina abriu silenciosamente a mochila e viu uma lata de leite condensado, pão, algumas notas de cem rublos e um caderno dentro. Ela olhou para trás, para Pasha.
— Parece que ele está dizendo a verdade.
"Tudo bem, Grigory", disse Pasha lentamente, soltando a mão. "Mas lembre-se, nossa aldeia é pequena. Se você fizer algo errado, todos os cachorros vão saber."
"Sim, eu entendo", suspirou o homem. "Obrigado por não desistir logo de cara."
